O governo iraniano estaria adotando uma estratégia de prolongar as negociações com os Estados Unidos, apostando que o custo político, econômico e militar do conflito acabará pressionando o presidente Donald Trump a aceitar concessões. A avaliação é do cientista político e professor da USP Feliciano de Sá Guimarães.

Segundo o especialista, Teerã busca transformar o tempo em um aliado. Ao retardar acordos e manter as negociações em ritmo lento, o Irã espera que fatores internos dos Estados Unidos enfraqueçam a posição da Casa Branca, especialmente diante da proximidade das eleições legislativas e do crescente desgaste causado pela guerra.

A recente sinalização iraniana de suspensão das conversas, após ataques israelenses no Líbano, é vista como parte dessa estratégia de pressão. Embora os diálogos tenham sido retomados posteriormente, a mensagem enviada por Teerã foi clara: o país pretende elevar seu poder de barganha antes de qualquer acordo definitivo.

Entre os possíveis pontos de entendimento discutidos nos bastidores estariam a normalização gradual do tráfego marítimo no Estreito de Ormuz, algum alívio das sanções econômicas impostas ao Irã e a recuperação parcial das exportações iranianas de petróleo. Em contrapartida, os Estados Unidos continuam pressionando por uma solução para o programa nuclear iraniano e pelo destino do estoque de urânio enriquecido já acumulado pelo país.

O principal impasse permanece na questão estratégica. O Irã deseja reduzir a presença militar americana em seu entorno regional, enquanto Washington considera essa possibilidade improvável. Além disso, qualquer acordo que deixe a questão nuclear sem solução definitiva pode ser visto como insuficiente por parte do governo Trump.

Na visão de Feliciano, caso o conflito termine sem que os Estados Unidos alcancem seus objetivos centrais — especialmente no tema nuclear — e o Irã consiga preservar influência sobre áreas estratégicas como o Estreito de Ormuz, o resultado poderá ser interpretado como uma derrota estratégica para Washington e seus aliados.

Em resumo, a aposta iraniana parece ser simples: resistir, prolongar as negociações e esperar que o tempo aumente os custos políticos da guerra para os Estados Unidos, fortalecendo sua posição à mesa de negociações.

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